sábado, 4 de maio de 2013

Zu


Poema pra Mãe Zuleide


Quem vai, parece que fica mais
Responsabilidade que vem
No peito de quem ficou
Do amor que quem foi legou
No peito de quem está

Quem vai que plantou demais
Deixa florestas e vales
Cheias de flores astrais

Quem semeou como ela
Com grandes asas revoa
Imensa sacerdotisa
Que nosso peito povoa

Cheguei como por chamado
Para ser sua vizinha
Canto santo, abençoado
Onde a filha se aninha

Teu amor de luz reflete
Cada filho que chegou
na estrela que luziu
na verdade que encontrou

Agora a luz vai lá longe
numa outra dimensão
uma conferência além
nos ares da imensidão

Vai filha de Ogum, de Oyá,
filha de deus, encontrar
no infinito os mestres seus
e outras mães, encontrar
e por nós, de lá, olhar
retrabalhando esse adeus

A família que me deste
dessa umbanda sagrada
tua família sanguínea
também por mim é amada

Ô, mãe tão admirada
Por a gente tão querida
Só foi porque foi chamada
Pois gostava dessa vida.

terça-feira, 30 de abril de 2013

tempo da avestruz



chegou novamente o tempo da avestruz
enfiar a cara num buraco escuro
e ser fêmea cinza
nuvem pluma cinza
na diluição do preto macho

montaria humana
profundo do insuspeito
nublada de pégaso
boca buraco e peito

chegou o tempo da ave tonta
carne pesada pronta
que na terra se distrai

pardal-camêlo, do grego
misturada ave equestre
chegou a hora e o tempo
do voo cego e silvestre

chegou o tempo da avestruz
travesti cinza madura
pegar a esquina dura
e ciganar no sinal

voar como fosse nuvem

chegou o tempo cinza da avestruz
e na cinza ela revela o tempo

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

cigana

Se pudesse te daria... Só posso dar o que tenho. Mística extrema.
Olha nos meus olhos e arranca! Revive as ancas retalhadas.
Já estive em tantos tempos... Torres, ferros...
Torrei em fornalhas gigantes.
Tenho o peito cheio e o coração desconfiado...
Com muito amor nos olhos você me compra.


gné da selva
21.11.12

terça-feira, 13 de novembro de 2012

veneza venéria


Veneza venérea


Recife não pode ver água
Alaga
Alaga
Encharca
E não se enxerga
Negra
Veneza venérea
Vulva vulgar
Da costa, da pedra, do quebra mar
Lugar, o não-lugar
Do mar, do leite, de pedra
Da pedra do craque do crime
Povoada e pantanosa
Horrorosa cidade sangrada
Sagrada, sonora
Senhora de veias abertas, nossa senhora
Nossa senhora de veias abertas, da conceição
Santuário, sumo rio, concepção
Submersa nebulosa, noite aquosa
Rósea senhora de concha nas mãos da maré


Guiné da Selva
Abril, 2011, ônibus, Apipulcos.

ciborgné

Mahin - 'Ciborgné'

sábado, 10 de novembro de 2012

ekinócio

                                                   
Saudade de corpo
Éter no criado mudo
A saudade se apresenta
É uma película rodando
E o risco é que queime.

Saudade de corpo
Vestiu-se de quieta
E a saudade implícita
Uma película rodando
E o risco é que apague.


(da série 'posibilidades',  Gné, sem data)



quarta-feira, 24 de outubro de 2012

pinguimsicosomágicos




oh dios



ÓDIOS

Ódios dos tantos cigarros
Das canecas que passam a ser cinzeiros
Da noite pro diabólico
Dos olhos acesos na fumaça
Da cinza no canto dos olhos
Da morte na casa.

O quarto me resta
O túmulo do quarto
Ísis Osíris na parte
Na lua do aparto
Buscando o sono dos justos.

Guiné da Selva, 25/10/12, Caxangá – Margens.


CASA
(à Camila Martins)

Demonizo teu álcool
Minha busca precisa de força
Estamos distantes
Construo à distância
Existe em ti uma calma
Teus olhos são de desapego
Na busca ébria tens lá uma sobriedade que me desconstrói
Enxergo a verdade
Não é a minha busca
Minha busca carece das gentes,
da alegria, do auto de natal, do auxílio
E aqui me perco no desamor,
reconhecendo sem reconhecer
Me negando a olhar, afim do desapego
Você não precisa do meu amor
nem da minha aceitação
Não precisa do meu reconhecimento.
Eu preciso do meu amor,
do reconhecimento automóvel.
Olhar sem estar perdida no descaminho do espelho
Meu caminho velho está acima dos meus pés
Velho e cego, acima do descompasso
Amigado ao espaço.


Guiné da Selva, 24/10/12, Caxangá - Márgens.