quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Corujita

Minha corujita,
No alto, com brancas plumas
Fazendo ninhos nas grandes vigas
Entre as falhas da coberta
Fazendo telhas com os olhos de proteção
Cadê teu sonho no inverno
Teu verão real
Estamos no tempo de teu vôo
E o tempo é nosso linho
Aqui costuramos o veio
Saberes simples
Mãos na penugem
Afago no presente
Minha corujita me afaga
Ela é a melhor carícia
Corujita elétrica
Quando dorme encontra a água
Uma menina terra
Em tempo de corujita
Estala a língua
chão de lua
Bico de alimento
Tento espelhos nos teus olhos que me fogem
Mas no teu respiro encontro a paz, a verdade e a essência
Encontro nos meus olhos
mãe e coruja

sábado, 12 de agosto de 2017

Sidmar

Coisas de casa
que se usa e abusa
Comidas, cômodas,
temperas, temperos.
Adolescências e casais.
Família tamanha, tamanho família.
Manhãs e ciganos
Cafés, pias cheias, luas meias.
Tormenta de cães
Verdade imantada.
Vinhos, flores, luzes
Ação,  consagração
Vida em alta definição.
Coisas que quebram e consertam
Caminhos que se cruzam
Na contra mão.
Desapego se aprendendo
Palhaça, palavra
Parole parangole
Filmes que não vi
Baixando aqui
Internet s
Sentido... que?
Silêncio
Orgânica
Organela
Organismo
Organização
Higienização
Desapego...
Quem somos? Que?!
Amoras. As infinitas amoras da estação.  Da temporada.  As roxas do verde, as roseadas azedinhas.
"Nomade" - com esses olhos so podes mesmo ser esse cigano, Sidmar.

24.02.2011
Várzea
Recife

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Lua gestante

Expurgar o que guardam peito e músculos.
Coração do mundo chove
Medo pede paz
Legítima raiva pede paz
Amor pede paz.
As chuvas da grande mãe consolam, acarinham, refazem
Nublado o olho do céu, adensa a atmosfera.
Pairam e revoam chorosas aves.
Resvalam.
A noite azul, marinho, cobalto.
Cristal de lua forte, oscilando,
Sumindo...
A lua olho
Espelho soma
Lua gesto
Algo restante
Alga, alma
Gestante.

Quarta feira,  13.04.2011 - Casa Forte, Recife

Noite agaloada

"Eu sou o céu para as suas tempestades.  Rainha dos raios... tempo bom, tempo ruim" (Gil)

Noite vermelha
Rua alagada
Água marrom
Chocolate rio
Navegancia tremenda
Ganância de movimento.
Te aquietas pessoa
Lagoa que se põe
Na tua ilha há um q familiar
Tuas fotos nas paredes
Redes
(Navegancia tremendo)
O tesouro acordado...
O corpo barco
Bardo que pulsa e dorme.
Na tua ilha tudo nada e volta
Ao redor e aqui
Navegancia tremendo
Calor no sentido
Na turva ilha ilha libido
Barca na rua sonhada
Caminho de água
Rio vermelho telha
Marrom terra
Água chocolate
Entranhoso cocô
Noite alagada.

2 de maio de 2011, Várzea

( li essa poesia hoje e sincronicamete fazem 6 anos dela)

domingo, 24 de julho de 2016

Mãe diz


Mãe diz que ela vai dormir
Ma diz que ela vai naná
Mãe diz que ela vai subir pro céu
Num cavalo marim do mar

Mãe diz que ela vai nanar Nanã
Nos braços de Iemanjá 
Mãe diz que ela vai subir Iansã
No raio do clarão de Oiá

Mãe diz que ela desce já
Mãe diz que ela vai correr
Mãe diz que ela vai correr no rio
No ouro de Oxum brilhá

Mãe diz que ela vai correr
No mato verde de Ewá
Mãe diz que ela vai subir
Cavalo da guerreira Obá

Mãe diz que ela desce já
Mãe diz que ela vai correr
Mãe diz que ela vai correr no rio
No ouro de Oxum brilhá





quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Carta ao Lobo Mal

Sr. Lobo Mau,
Em estado de maldade te encontras, mas não és isso. Se dentro das vozes e imagens que te perseguem conseguistes encontrar o silêncio... Consigo ver uma massa condensada de ausência. Que na tua história te foi negado? A ti, a teu antepassado? Que maldição te recai e vestes? Precisas chamar atenção, mas te escondes. Teu mal te remonta a milhares. Que engano esse teu. Limbo. Pedes a morte, o estupro, a moça, a velha, os porcos brancos... Busca agonísticamente o feminino que a sociedade te negou? E desejas sem limite tudo que te falta, e feito bicho raivoso vais devorando o que não compreendes. Devora, esquarteja, atropela, cospe, esfacela, degola, engole, devora. As moças, a velhas. As pretas, branquejas. As travas, sapatas, as bibas, as bambis, Aquelas. Todas. E a teu segredo o que agrega? Num segundo, nem sabes; lambes o ouro, o carro, o louro. A inveja intensa de cada porco branco que se esconde em sua morada segura. Com cerca elétrica, arame, alarme. Em "suas terras", patrulhada de cães... Ou és aquele lobo branco armado, perdido nos ódios do tempo, mostrando a carta que paira nas bocas dos velhos vencidos, herdeiros do orgulho branco escravocrata que reluta se envergonhar do feitos. Ou o torturador, devorador de si e do outro, se abrindo nos arquivos. Que tipo de lobo és? Que de tão mau se encerra? Aquele que erra? Aquele que era? Vejo tuas mãos finas e transparentes entregando crianças negras a teus parentes pra caçar crocodilos... Esse engasgo, esse engodo. No lodo das raízes que saltam, nas chapeuzinhos que saltam, nos porcos, nas ovelhas, nas velhas xamãs... Cada índio, negro, lobo, selva, terra... Cada mulher, negra, branca, indígena, cugana, cada mãe, cada bruxa... Que tua espada, arma, fogueira, bomba... Comeu.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

sereia ouriço

então saio daqui
agradecida e com as malas buenas
llena de leche dulce
socorrida do real amargo
saio na hora de rever as avenidas
com um coração nos braços
no peito, pulsar de fungados
colo um ser, inteiriço 
sereia ouriço





quinta-feira, 21 de agosto de 2014

parto e filha

parte de porte
forte parte que une
partida
partilhada
compartida
barriga compartimento
sentir que religa
briga, consentimento
ressentimento e instiga
que compartilha
pequena ilha


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

escorpião

Oh, quantas flores de Aldebarã queres no jardim
Quantas touras, morenas, louras, queres ferrar

Língua enrolada essa da poética enrroladinha
querendo rolar querendo rolar

Avoa avoa, passarinho
 acha teu ninho no Amapá

Atoa atoa, coitadinho
buscando coito noutro lugar

Mil e uma as estrelas de Aldebarã luzindo
nos teus olhos perdidos
de ilusão constante

Mil e uma noites desperdiçadas 
de fundida espada
Solidão cortante

Começou uma guerra fria
Guerra do fogo acabou

Gerando a luz de Luzia
Não devo tempo nem nó

Fadas queres segurar cintura
arrancar as asas na tortura

Abelhudo, zangão, afim de militar
em todo batalhão,

Em todo angar, afim de pousar

Não te culpo, lobo lupo
mamífero secular

a fim de mamar
a suma volúpia
noiva nova nupcia
de descaminhar

Vento volátil uivante
afim de amante
de cunho galante
de galo cantar

Mira tanta estrela, o escorpião
de constelação

Estuda tanta rota, que já não lhe enxota
o jovem ferrão

A fim de ferrar, a fim de ferrar

terça-feira, 29 de julho de 2014

revolta das fadas

Ciúme e raiva de todas essas falas escritas, mágoa
Das aberrações descritas, monstros de dígitos
A transa, a tara, a panela de pressão
Toda essa literatura interna, escondida,
Cheia de palavra ruidosa pompando a erudição
Pra colher verde, pra colher maduro
Pra se sentir

Estais preenchido? Tua alma, teu umbigo?
O mal duro agora quer se expandir
Como teu peito pretende se abrir pra raiz
Como tua transa ensaia duas na madrugada do virtual

Assim engulo teu gozo como engolindo teus sapos
Guardo teus sapatos como guardas teus segredos
Com vergonha que me descubram te guardando

E fica na falha tua vitória entendida e disponível
E meu drama sem pra quê nessa altura do torneio, da tourada
Beirando poema bélico e pensando na palestina

sexta-feira, 25 de julho de 2014

dicionário de mãe ebulindo

ovo ovo ovo
vale de ovos
vivos ovos
maturando dentro

uivos, calos
meus cavalos
segurá-los
mastigando fenos

leites leites leites
humanos azeites
penas e deleites
gomas e unguentos 

gentes gentes gentes
buliçosas gentes
novas e crescentes
procurando centros


chuvas e serenos
pejos obscenos
porcos lameados

natureza bruta
bolsa rota enxuta
xotas esgarçadas
 
 ...


domingo, 4 de agosto de 2013

tortuguita

cada uma pessoa que mora
espécie rara no corpo
lembrança viva se povoa o corpo
cada pessoa que funde casco
finda divisão e fica corpo
no sutil misturado corpo
plena amizade de tempo
finda morte e se infinita
alma mora na distância do piauí
junto do encontro amplo
distância sempre distrai
e o querer vira um detalhe besta
com cara de tortuguita marrom
e o bem querer, detalhe bom
é desapego secular
com cara de idoso zen

quarta-feira, 31 de julho de 2013

oração do cotidiano



Paz do cotidiano, me acha
Amor do cotidiano, me toma
Coragem do cotidiano, me acorda
Solidariedade do cotidiano, me ensina
Arte do cotidiano, me apropria
Salmo do cotidiano, me liberta
Verdade do cotidiano, me irrompe
Selva do cotidiano, me fortalece
Semente do tempo, me renasce

sábado, 27 de julho de 2013

amor

a quem recorrer?!...
pensei em matar, pensei em pular, pensei em morrer
pensamento é só, pensamento
no tempo pendular, uma ansiedade de ser, algo
coisa

calma, mira, calma..
calma o que?!
calma falha desalma

corpo me desperte
raio de raiva
ilusão de medo

caminha, corre, varre, morre
descarga escorre
amor socorre

informe

lambeu um doce e viu o inferno
nem sabia quão era beata
tava longe da ciência
da mata

tomou um banho de água doce
nas águas da cidade grande
e no meio da poluição
estética

ficou louca

era crente, era descrente
e no fim não era
nada


à muitas eras apegada
e o aqui agora do seu povo
acudia


estado de choque acordava
guiné elétrica da noite


e a celpe terceirizada
usava uniforme

quarta-feira, 24 de julho de 2013

oração de parto e renascimento

hoje tá sendo um dia cotidianamente excêntrico em que conexões cósmicas e sincronicidades ancestrais estão se materializando. peço a benção a vocês Comadres, à Lua cheia que despontará aqui mais tarde, já anunciada certamente no outro hemisfério. hoje é dia de nascença, minhas mortes já anunciadas estão transcendendo em renascimento, em religação para as próximas que se esparramarão pelo chão dessa jornada. peço a benção à Nossa Senhora do Carmo, linda Oxum das águas doces, pois agora é seu tempo; às águas do inconsciente que nos mostram à palo seco nossos universos; aos Exús, pelos tempos de mudança que teremos pela frente e que se lançam a partir do mês de agosto; aos cães e cachorros que guardam o mundo dos mortos e guiam os espíritos pelo submundo, sendo a lealdade, o amor incondicional; às panteras, pelo mistério, sensualidade e segurança de si. a benção a Omolú, orixá da morte e dos enfermos, onde estão contidas todas as doenças e suas respectivas curas; à Juno, guardiã das parteiras e gestantes; ao ato de respirar que representa a possibilidade constante de renovação, ao Tao da vida enfim.
mentalizemos o que foi semeado e que agora aflora, nesse presente, germinando. abençoemos o que nasce, acreditemos em nossas sabedorias, alimentemos nossos interiores para aprimorar a intuição. agradeçamos ao que acontece e faz com que nossos ciclos aconteçam, aos ventos mais uma vez. agradeçamos à possibilidade que se cria a cada dia de já não saber mentir. acocoremo-nos pedindo a benção às nossas cablocas, fortalecendo nossos ventres, fontes físicas de nossa fertilidade.
o abismo está sempre a nossa frente, resguardando o novo, inócuo ovo chocado pelas nossas qualidades de galinha. o ovo quebra, e acima do pescoço a cabeça, a cabeça trará coisas boas. jubilemos.

com amor
Ceci

#Cecília é cientista social e estuda o ofício da doula <3 br="">

http://pt.wikipedia.org/wiki/Doula

sábado, 4 de maio de 2013

Zu


Poema pra Mãe Zuleide


Quem vai, parece que fica mais
Responsabilidade que vem
No peito de quem ficou
Do amor que quem foi legou
No peito de quem está

Quem vai que plantou demais
Deixa florestas e vales
Cheias de flores astrais

Quem semeou como ela
Com grandes asas revoa
Imensa sacerdotisa
Que nosso peito povoa

Cheguei como por chamado
Para ser sua vizinha
Canto santo, abençoado
Onde a filha se aninha

Teu amor de luz reflete
Cada filho que chegou
na estrela que luziu
na verdade que encontrou

Agora a luz vai lá longe
numa outra dimensão
uma conferência além
nos ares da imensidão

Vai filha de Ogum, de Oyá,
filha de deus, encontrar
no infinito os mestres seus
e outras mães, encontrar
e por nós, de lá, olhar
retrabalhando esse adeus

A família que me deste
dessa umbanda sagrada
tua família sanguínea
também por mim é amada

Ô, mãe tão admirada
Por a gente tão querida
Só foi porque foi chamada
Pois gostava dessa vida.

terça-feira, 30 de abril de 2013

tempo da avestruz



chegou novamente o tempo da avestruz
enfiar a cara num buraco escuro
e ser fêmea cinza
nuvem pluma cinza
na diluição do preto macho

montaria humana
profundo do insuspeito
nublada de pégaso
boca buraco e peito

chegou o tempo da ave tonta
carne pesada pronta
que na terra se distrai

pardal-camêlo, do grego
misturada ave equestre
chegou a hora e o tempo
do voo cego e silvestre

chegou o tempo da avestruz
travesti cinza madura
pegar a esquina dura
e ciganar no sinal

voar como fosse nuvem

chegou o tempo cinza da avestruz
e na cinza ela revela o tempo

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

cigana

Se pudesse te daria... Só posso dar o que tenho. Mística extrema.
Olha nos meus olhos e arranca! Revive as ancas retalhadas.
Já estive em tantos tempos... Torres, ferros...
Torrei em fornalhas gigantes.
Tenho o peito cheio e o coração desconfiado...
Com muito amor nos olhos você me compra.


gné da selva
21.11.12

terça-feira, 13 de novembro de 2012

veneza venéria


Veneza venérea


Recife não pode ver água
Alaga
Alaga
Encharca
E não se enxerga
Negra
Veneza venérea
Vulva vulgar
Da costa, da pedra, do quebra mar
Lugar, o não-lugar
Do mar, do leite, de pedra
Da pedra do craque do crime
Povoada e pantanosa
Horrorosa cidade sangrada
Sagrada, sonora
Senhora de veias abertas, nossa senhora
Nossa senhora de veias abertas, da conceição
Santuário, sumo rio, concepção
Submersa nebulosa, noite aquosa
Rósea senhora de concha nas mãos da maré


Guiné da Selva
Abril, 2011, ônibus, Apipulcos.