quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Mário Lunduz
......................Mário de Andrade
Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.
Cortina de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.
Mas gaúcho maranhense
Que pára no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!
Eu sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!...
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bajé, pixé, chué, ôh "xavié"
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!
Virtude de urubutinga
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês "singe"
Mas não sabe o que é guariba?
— Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
enfeitada por caracóis.

Era um Lugar vermelho
e um canto calado
Uma ave infinita
uma janela tambem...
Uma porta, uma horta
Uma passagem
Além
do mais
já passou muito nenem
A história fetichizzou esse lugar bonito que mira a terra
constrito, quis manter de mentira
e tudo desse universo virou subsolo
Mas, apesar de toda cela
há em toda gente
que dorme e sonha
'medonha'!
uma criança que tem um gato...
gato que tem no olho a síntese da lua.
e nenhuma
quando a biologia vem em abrupto
sábia de si
ensinando a ser
foge da semente...
maçã, serpente... De todo o conteúdo.
e de escudo, ela é que vem a cavalo
Sem precisar de príncipe encantado,
cantando galo
e fastando os espinhos.
(Recife, set, 2009- A. Mahin)
Minha querida Jocasta.

O complexo das Guinés da História.
Estava cega e perdida depois da terrível paixão incestuosa que afetara em definitivo sua eterna existência.
A questão era uma só: como superaria o Édipo inevitável em seu triste fado dual?!
Ela, que em descuido, chegou apenas com uma das sandálias no calçar, não podia fugir dos olhares repulsivos da população.
A profecia era aquela e fim, Freud disse tudo...
Estava lá... Desde o saco, desde o gozo, desde a concepção.
O medo so adiou o reencontro.
O crime varou o tempo, cheio de castigo...
E, o que podia muito bem ser amor pleno, veio em desejo e culpa.
(...)
(Aszim...*8 Revista Lunduz- Setembro de 2oo9)
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
ELA MOVE
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
pomar
A romã, e a amora.
Tens agora a permissão para qualquer fruto do meu pomar colher, a tâmara, o damasco, qualquer! Inclusive as folhas secas para chá. Fique a vontade em desfolhar, as canelas, as laranjeiras-cravo, e cravar com adagas corações nos troncos.
O pomar está aberto para que cante em flor cantigas persas com as aves santas que simpatizam com o amarelar das frutas, e que levam para outros campos as sementes de aqui.
No entanto, quando o sol posto, quando os insetos procuram o calor das luzes, pode vir descansar as sobrancelhas no meu colo, que te conto histórias velhas de sono.
A. Mahin.
Irã, 09 de setembro de 2009.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Argumento:
quinta-feira, 30 de julho de 2009
*8
A NOITE E O CAMINHO:
A POÉTICA DE AGOSTINHO NETO
..........................................................................por Anaíra Mahin e Camila Santana.
“Seguindo
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
sobre a onda sobre a nuvem
com as asas primaveris da amizade
Simples nota musical
indispensável átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação múltipla do humano (...)”
(Agostinho Neto, no poema “Confiança”, 1976)
“Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.
(...)
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser”.
(...)
Também a noite é escura.
(Agostinho Neto, no poema “Noite”, 1976)
Antônio Agostinho Neto, nascido a 17 de setembro de 1922, em Kaxicane, a uns 60 km de Luanda, foi personalidade fundamental para a luta da independência de Angola e o primeiro presidente de seu país após a conquista da soberania nacional. Médico e poeta, foi também presidente do MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) e fundador do Movimento Anticolonial. A poética de Agostinho reflete a riqueza de sua busca, o caráter artístico de sua trajetória política, seus questionamentos e respostas, assim como salienta Jorge Amado, no prefácio de Poemas de Angola (1976): “Na luta pela independência de Angola, a poesia foi arma poderosa manejada por Agostinho Neto. Na selva, tanto quanto a metralhadora, o fuzil e o facão, a poesia sustentou o ânimo e alimentou a esperança dos guerrilheiros” (NETO, 1976, p.7). Deste modo, a arma da poesia revela-se uma forma eficaz de resistência, como a Guerrilha do Araguaia, por exemplo, que produziu uma poética de autoria coletiva, publicada pela primeira vez em 1979, no jornal “Resistência”, do Pará. Vejamos um destes poemas, que segue:
CANTO DE AMOR AOS GUERRILHEIROS DO ARAGUAIA 1. não nas vossas mãos não tendes fuzis tendes clarões estrelas pedaços de manhã as vossas armas são como archotes combatendo a noite e porque acendeis o dia nós vos amamos 2. nós vos amamos - que é preciso o mais cedo madrugar
mas rompa-se à distância este nós-e-vós que nos parte em dois; não há distância quando a noite é uma quando sobre todos pesa a mesma bruma quando sobretudo a ordem é lutar
Pretendemos cá, realizar uma análise sociológica mais amorosa da poesia de Agostinho Neto, diferente das análises que minimizam sua poesia a uma poesia panfletária e datada. Este estudo se dará a partir das teorizações de Roger Bastide acerca da poesia como método sociológico e da experiência de Paulo Freire em relação à autonomia, uma vez que partimos do pressuposto da poesia (ou arte em geral) como possibilidade de uma pedagogia do oprimido. Em relação à afirmação crítica de que seria a poesia um método pedagógico, Bastide explica que “mais do que isso. A expressão poética não seria pedagógica se a sociedade nada tivesse de poética. Há, porém, na sociedade o elemento de poesia sendo a expressão poética um esforço de fidelidade em relação à própria verdade das coisas” (BASTIDE, 1983). No prefácio do mesmo livro Florestan Fernandes afirma que Bastide foge à regra das Ciências Sociais tradicionais, que condenam o subjetivismo como fonte de erro e a afetividade, levando a desvios de compreensão. Comungamos com Bastide em defender esse contrário: para nós, assim como para Bastide, o subjetivismo aparece como verdadeiro manancial de conhecimentos, que permite penetrar mais a fundo na realidade pelos caminhos da sensibilidade e da intuição.
A expressão poética das preocupações de Agostinho Neto evoca a verdade experiencial de sua luta, os porquês construídos em sua experiência social ampla. Compreende-se aqui o versar tenso dessas contradições psicossociais - quando escrita, a poesia (enquanto poema) é um recorte prismal dessas contradições, que podem ser experienciadas por nós.
Assim, a arte poética, ou a arte em geral, pode ser entendida também como método psicanalítico: pois ajuda o poeta a trabalhar seus conflitos internos, e quando é externalizada, tornando-se código, passa a poder ser experienciada por outros através de sua dimensão arquetípica. Constitui, assim, uma ferramenta de autoconhecimento, individual e social. Faz-se técnica de cura, dentro de um quadro de luta psíquica. Faz-se parceira no método sociológico: na compreensão das contradições sociais. É essa poesia uma síntese do processo cognitivo, um encontro entre o pensamento intuitivo e o domesticado de que nos fala Strauss em “O Pensamento Selvagem”. É através do que há de elementar, de universal, que a poesia pode funcionar como um método terapêutico genérico, catártico, tanto para quem expressa quanto para quem lê.
Portanto, os poemas de Neto nos trazem, como nuvens densas, uma síntese do contexto social vivido, de sua posição, de suas preocupações. A liberdade, a identidade, a esperança... Parafraseando Marcel Mauss, poderíamos aqui entender a poesia em questão como uma espécie de “fato social total”, tendo em vista a totalidade contextual sintetizada e nebulosa como consequência de algo que a envolve. Como podemos encontrar nesta poesia sua leitura de mundo, sua filosofia, sua alma afetada?... Acredito que apenas estando abertos para este experienciar.
Quando paramos para entender o contexto do mundo em questão, quais os sentimentos relativos as propostas praticas de mundo que foram se tornando hegemônicas, podemos entender como essas propostas impostas foram matando outras, e como essas mortes foram se configurando no peito das pessoas, em nosso próprio peito. Entender como essa morte existe em cada um de nós: enquanto busca, ou como negação – entender como ela nos habita.
Agostinho Neto comunga em sua poesia com aspectos centrais do tipo de Pedagogia pensado pelo o professor Paulo Freire: compartilham de pressupostos éticos que devem guiar a ação - uma ética do coração - não pressupostos moralizantes e autoritários, mas idéias que nos levam a reflexão de nossas ações tão movidas por condicionamentos que naturalizamos sem pensar. Trazem a reflexão da necessidade de que se entenda que a luta precisa ser percebida internamente - os condicionamentos, as limitações – para que possa então ser externalizada no âmbito da realização social. Ou seja, há de se tomar consciência dos processos condicionantes, do processo de socialização ao qual fomos submetidos, e isso deve servir para que possamos intervir nas estruturas compreendendo-as. Freire nos fala da importância da “legítima raiva” para a ação não resignada que promove a mudança. Alerta, no entanto, para o perigo de que essa raiva venha a tornar-se odiosidade. No poema “do povo buscamos a força” Agostinho Neto expressa essa mesma preocupação:
Não basta que seja pura e justa
a nossa causa.
É necessário que a pureza e a justiça
existam dentro de nós.
Dos que vieram e conosco se aliaram
muitos traziam sombras no olhar
intenções estranhas.
Para alguns deles a razão da luta
era o ódio: um ódio antigo
centrado e surdo como uma lança.
(...)
Outros viemos.
Lutar para nós e ver aquilo que o povo quer realizado.
É ter a terra onde nascemos.
É sermos livres pra trabalhar.
É ter pra nós o que criamos
Lutar pra nós é um destino –é uma ponte entre a descrença
e a certeza do mundo novo.
(...)
Lutar pra quê?
Pra dar vazão ao ódio antigo?
ou para ganharmos a liberdade
e ter pra nós o que criamos?
(...)
(NETO, 1976, p.49-50)
No mesmo poema Neto trava um diálogo com outros grupos que também engrenavam a “luta de libertação de Angola”: a UNITAS, de Savimbi, e a FNLA, de Holden Roberto. Neto coloca em pauta as contradições que traziam esses dois movimentos, que lutavam pela liberdade nacional, mas que estavam ligados a modelos extremamente opressores. A liberdade que neto fala é a de criar, de ser, da diferença, no entanto, não enxerga dentro dessas propostas de mundo, as quais se aliam seus compatriotas, uma clareza ética.
Quanto a este aspecto, destacamos um trecho do poema “Criar”:
Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos
(...)
Criar criar
criar amor com os olhos secos.
(NETO, 1976, p. 30-31)
É triste que dentre todas as bibliotecas da Universidade Federal de Pernambuco só tenhamos encontrado dois artigos pequenos sobre Agostinho Neto, os dois na biblioteca do Centro de Artes e Comunicação, é triste que nossa biblioteca de Filosofia e Ciências Humanas nada tenha sobre a tão sensível ‘ciência humana filosófica’ de Antônio Agostinho Neto. José Luis Pires Laranjeira foi um dos autores que encontramos em pesquisa no Google acadêmico, com bem uns 30 anos de dedicação ao estudo e interpretação de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, escreveu muita coisa sobre Neto, tendo ajudado muito em nossa reflexão analítica da poética de Agostinho. Laranjeira acorda a importância dessa literatura como documento histórico em sua totalidade e lindeza. Em um de seus recortes, expõe esse “Agostinho Neto, poeta : comprometido com o africano, com o negro de todo o mundo, com a luta de libertação nacional e com a mulher”, fala de "um negro que falava, sobretudo para os outros negros, contra o fascismo e o colonialismo".
Quando começamos a refletir como Neto enxerga esse nacional, passamos a enxergar que dentro de sua poesia esse nacionalismo não existe nos moldes tradicionais. Percebemos, tentando entender a essência de sua poesia, que dentro desse contexto experiencial, a nação confunde-se com a não existência dela, ou, em outras palavras, o sentimento de desterro. A nação é, portanto, a própria necessidade de ser, de expor essa diferença, de poder ser no sentido amplo da palavra, material e imaterialmente, poder expressar sua forma de fazer, sua lida, sua maneira. Trazendo no mesmo bojo todas as lacunas, todo o esborrotar de águas salgadas e turvas em todo um subjugar e submeter inscrito na história. Antônio Agostinho Neto carrega o sentimento do mundo, no entanto, tinha apenas duas mãos, enfim, era um ser humano, no sentido mais belo que pode ter a palavra. Compreendendo as contradições sociais que viveu, podemos compreender um pouco mais o sentido de suas conjecturas, a finalidade delas.
Em análise do caráter nacional na poesia de Neto, vem o poema “Confiança”, onde enxergamos essa idéia de uma nação ampla, ligada pelas raízes e pela perda, em busca e diáspora oceânica:
O oceano separou-se de mim
enquanto me fui esquecendo nos séculos
e eis-me presente
reunindo em mim o espaço
condensando o tempo.
Na minha história
existe o paradoxo do homem disperso
(...)
(NETO, 1976, p.25)
Entendemos que em Neto a nação é um sentimento, a luta pela libertação da nação não é mais que a libertação das pessoas, libertação essa que independe de um estado estrutural externo. A nação está ligada a uma experienciação comum, por isso também ligada à negritude:uma palavra que tenta chegar a esse negro disperso no mundo.
Podemos, assim, pensar em uma “africanização de Marx”, pondo em pauta as leituras que Agostinho fez e de como, nesse sentido, a ligação que trava com um modelo de nação, por exemplo “o socialismo”, vem a ser mais uma estratégia política do que propriamente uma identificação total. No entanto, pensando o modelo Soviético, ou o de Cuba, dentro do quadro da geopolítica da época, é fácil entender a aproximação do MPLA, pois era importante para o movimento ter um apoio internacional, podemos pensar que era uma instrumentalização mútua, que tanto o MPLA precisava desse apoio, quanto essas potências precisavam criar novos exemplos. Em essência, a poesia militante de Neto (e não panfletária) é reflexiva, e pensa estratégias de libertação. De uma libertação ampla, dentro de um processo reflexivo que dialoga com os condicionamentos dentro das tensas histórias, dos tensos processos de opressão sofridos.
Dentro dessa idéia de uma nação desterrada e interna, difícil de ser enxergada por não se dispor na verticalização esperada pelo olho mal acostumado, eurocêntrico, Pierre Clastres, em sua Arqueologia da Violência e em A Sociedade contra o Estado, fala das nações que fugiam desses modelos opressores, que desceram às Américas livrando-se dos impérios. Creio que, da mesma forma, em essência, é esta a idéia de nação que Agostinho Neto quer-bem, essa de uma liberdade em ser, liberdade identitária das quais foram privadas esses nações que sofreram a colonização.
Ao trazer este ser e esta maneira, Neto dialoga com outros grupos que também lutavam pela libertação de Angola. Agostinho pensa sobre esse governo, mas que tipo de governo? Ainda no trecho do poema “Do povo buscamos a força”, ele questiona:
Lutar pra que?
Para dar vazão ao ódio antigo?
Ou para ganharmos a liberdade
e ter pra nós o que criamos?
Na mesma barca nos encontramos.
Quem há de ser o timoneiro?
(...)
(NETO, 1976, p.49-50)
Quem será o timoneiro?... Essa também era uma preocupação de Neto, observe-se que sua poesia fala de ética e não de moralidade, como nos fala Lao Tze em seu Tao Te Ching. Enquanto disputavam o poder em Angola, o MPLA, de Neto, a UNITAS de Savimbi, e o FNLA de Holdem Roberto, estavam todos no mesmo barco, o da libertação de Angola, mas de que maneira buscavam essa liberdade, com quais ferramentas? As criticas feitas na poesia de Neto a esses movimentos são criticas construtivas, anticapitalistas e pacifistas. Pensamos que além da mensagem ao interlocutor da época – esses homens negros que estavam no mesmo barco - O pensamento de Neto, condensado em poema, navega e nos fala agora, quando no “choro de africa” encontramos esse negro morto que nos habita, esse sentimento de perda que nos instiga a busca. -"O oceano separou-me de mim" ele diz em sua "Saudação", e conta de toda uma diáspora. E desse 'movimento' entre mares. Muito suor cor púrpura acordando em outras geografias. E, é nesse sentido de uma unidade nacional panafricanista, que essa poética comum acorda transfigurada, e o sentimento é o semelhante, busca o semelhante. Busca a arte, a arte sacra... De novos velhos cânticos, em outras línguas, na mesma - aquela do desatar interno- e o sentimento é o mesmo do outro lado do azul oceânico, e o semelhante se reprocura em outras cores e formas, entre outras formações vegetais. arqueologias de sementes. Os imbondeiros, os baobás... Os homens e mulheres que vez ou outra inda aparecem de "braços erguidos". Dentro de uma "poesia africana" espalhada e de pés descalços, de pés descalços e de pés calçados de uma espécie de saudade que movimenta. de uma esperança ativa. Nossos quilombos, nossos índios misturados, e os brancos afetados. Uma verdade está aí, a de que “todo contato afeta”, nada mais tem jeito, nada mais é igual o que era antes, e ainda o antes está em nós, e como a gente o reenxerga, o ressignifica? Tudo aconteceu e acontece. Tecemos já aqui outros textos para transformar em amor transposto, o rosto, e enxerga-lo 'numa boa', sem dor.
Portanto, a poesia que Neto nos deixou, tem a ver com esse panafricanismo, e ou, o quilombismo que nos traz o 'paulista de França' Abdias do Nascimento, falando de um o Poder Negro, de uma auto estima, de um autoconhecimento necessário para a superação. Coisa que nos leva ainda a pensar o negro interno de cada um - como a gente traz esse negro, como a gente o sente, o que ele representa.
Lendo o capitulo 4 , Sobre a Cultura Nacional de Os Condenados da Terra (1968), de Frantz Fanon, encontrei uma fala de Ahmed Sékou Touré (líder político africano e presidente da República de Guiné de 1958 até sua morte em 1984. Touré foi um dos primeiros nacionalistas guineanos envolvido na libertação do país da França) e fui pesquisar um pouco sobre ele tendo achado essa outra frase: "preferimos a pobreza em liberdade à riqueza em escravidão".
A frase me lembrou o livro do beninense Albert Tévoédjrè, Pobreza a Riqueza dos Povos - a transformação pela solidariedade (1982), nele Tévoédjrè trabalha os significados dessa Riqueza, as variáveis que a moldam, as intensões que a guiam. nesse sentido, a 'Riqueza dos Povos' é a 'pobreza' dita, não a miséria, mas a dádiva afetiva da compreensão da troca como algo imprescindível para a coexistência real no mundo.
A existência do outro além de material e externa, é interna, e dependente. Se a intenção é de comunhão, não devemos pois por a frente os aspectos que repudiamos no outro, pois sofreremos, no entanto quando elegemos a 'conversa' como proposta ética, mesmo com dificuldades de condição, nossos olhos vão buscar o uno - uno que nada tem a ver com ser igual no sentido restrito, sim com a compreensão dos porquês e respostas alheias.
Pensando a dialogia do título do livro de Frantz Fanon “Os Condenados da Terra” com o do poema “As terras sentidas” de Agostinho Neto, pensamos essa relação do homem com o seu “laboratório natural”, e o Sentimento de desterro diante desse afastamento, desse 'apartamento':
As terras sentidas de África
nos ais chorosos do antigo e do novo escravo
no suor aviltante do batuque impuro
de outros mares
sentidas
(...)
Vivas
em si conosco vivas
Elas fervilham-nos em sonhos
ornados de danças de imbondeiros sobre equilíbrios
de antílope
na aliança de tudo que vive
(...)
na razão pura e simples da existência das estrelas
Elas vivem
as terras sentidas de África
porque nós vivemos
e somos as partículas imperecíveis
e inatacáveis
das terras sentidas de África
(NETO, 1976, p. 26-27)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMPOS, Libério de. Poesias da Guerrilha do Araguaia. Disponível em: <http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2004/09/291383.shtml>. Acesso em: 10 de junho de 2009.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Basiliense, 1968.
NASCIMENTO, Abdias do. O Quilombismo: documentos de uma militância pan-africanista. Petrópolis: Vozes, 1980.
NETO, Agostinho. Poemas de Angola. Rio de Janeiro: Codecri, 1976.
TÉVOÉDJRÈ, Albert. A Pobreza, Riqueza dos Povos: A transformação pela solidariedade. Petrópolis: Vozes, 1982.
STRAUSS, Leví. O Pensamento Selvagem.
MAUSS, Marcel. Ensaio Sobre a Dádiva.
CLASTRES, Pierre. Arqueologia da Violência.
CLASTRES, Pierre. A Sociedade contra o Estado.
TSÉ, Lao-. Tao Te Ching. São Paulo: Martin Claret, 2006.
domingo, 5 de julho de 2009
sexta-feira, 3 de julho de 2009
terça-feira, 31 de março de 2009
segunda-feira, 30 de março de 2009
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
o que os velhos contam de mim
Autor: Tata riá Nkissi Nkassuté Numa certa manhã, vinha de cabeça baixa e muito triste uma Kerere, lamentando-se «estou fraca, estou fraca, estou fraca!». Resolveu saciar a sede num riacho. Lá deparou-se com uma linda mulher que se banhava e coquete como só ela sabia começou a pintar-se. | |
Kerere quando viu aquilo admirou-se: era Dandalunda, aquela que dá brilho às jóias e se banha e pinta antes mesmo de cuidar dos filhos... Dandalunda quando percebeu a tristeza daquela ave perguntou-lhe:- Porque é essa tristeza Kerere? Kerere respondeu-lhe:- Entre os meus pares eu sou a mais feia! Naquela época Kerere era toda preta... Dandalunda então pediu para Kerer se aproximar. Ela pegou em osum e pintou o seu bico; depois com osum vermelho os brincos. Depois com waji tornou as penas azul escuro e com efum fez as pinturas brancas. E continuou a pintar Kerere. Esta ao ver a sua imagem no abebé de Dandalunda saiu correndo de tanta felicidade cantando "Kuéim, kuéim, kuéim". Dandalunda que ainda não tinha terminado de pintar Kerere pediu a Kakulu, divindade dos gémeos para que corresse a trás de Kerere e a trouxesse de volta pois não tinha pintado o seu peito. Kerere lá voltou e pediu para que Dandalunda ao invés de pintar o peito lhe desse um colar. Dandalunda fez-lhe a vontade e ofereceu-lhe um colar em forma de coroa que Kerere carrega até hoje... e entre os seus pares é a mais linda de todas... Tempos depois Kerere voltou e tornou-se o primeiro ser que "tomou" obrigações por aquela que é capaz de modificar todos com a sua doce magia encantada. Kerere, o primeiro ser raspado, adornado e pintado por Dandalunda... e é por este motivo que quando um Kerer é sacrificado temos que tirar este colar em forma de coroa e coloca-lo em evidência! .... Kerere é também conhecida por Konquem, "Tô" fraco, E tu ou Galinha de Angola | |
Retirado de: http://www.SanzalAngola.com/
A areia deveria ser jogada no oceano e a galinha posta em cima para que ciscasse e fizesse aparecer a terra. Por último, colocaria o camaleão para saber se a terra estava firme.
Oxalá foi avisado para fazer uma oferenda à Exu antes de sair para cumprir sua missão. Por ser um orixá funfun, Oxalá se achava acima de todos e, sendo assim, negligenciou a oferenda à Exu. Descontente, Exu resolveu vingar-se de Oxalá, fazendo-o sentir muita sede. Não tendo outra alternativa, Oxalá furou com seu opasoro o tronco de uma palmeira. Dela escorreu um líquido refrescante que era o vinho de Palma. Com o vinho, ele saciou sua sede, embriagou-se e acabou dormindo.
Olodumaré, vendo que Oxalá não havia cumprido a sua tarefa, enviou Oduduwa para verificar o ocorrido. Ao retornar e avisar que Oxalá estava embriagado, Oduduwa cumpriu sua tarefa e os outros orixás vieram se reunir a ele, descendo dos céus, graças a uma corrente que ainda se podia ver no Bosque de Olose.
Apesar do erro cometido, uma nova chance foi dada à Oxalá: a honra de criar os homens. Entretanto, incorrigível, embriagou-se novamente e começou a fabricar anões, corcundas, albinos e toda espécie de monstros.Oduduwa interveio novamente. Acabou com os monstros gerados por Oxalá e criou homens sadios e vigorosos, que foram insuflados com a vida por Olodumaré.
Esta situação provocou uma guerra entre Oduduwa e Oxalá. O último, Oxalá, foi então derrotado e Oduduwa tornou-se o primeiro Oba Oni Ifé ou "O primeiro Rei de Ifé".
Olodumare – Senhor do Destino .
Orunmilá – Divindade da Sabedoria (Senhor do Oráculo de Ifá)
Orixá – Divindade de Comunicação entre Olodumare e os homens, também chamado de elegun, onde a palavra elegun quer dizer
"aquele que pode ser possuído pelo Orixá".
Egungun – Espíritos dos Ancestrais
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
'pensando a dimenção do lundu'.
tudo bom? quem escreve é raphael, o gringo, de santarém, pará. d'aqui a algumas horas, pego um barco para boím, uma vila de 150 famílias no alto tapajós. tem um grupo de teatro lá procurando um diretor...então, lá vou eu. a idéia agora é ficar para construir um ato de natal...porém, pretendo estar de volta em santarém por alguns dias em dezembro, para editar alguns artigos, etc et tal.
jurei pra varias pessoas aqui no brasil que esse ano, eu não me importaria mais com a eleição lá nos eua. mas acabei acompanhando de perto, e torcendo forte para o obama. nesse tempo todo, cheguei em pensar muito em que ele representaria no mundo, mas fiquei tão destraído - e tão desesperado com a possibilidade de ter uma presidente chamada sarah palin, que teria sido até pior do que o bush - que nem considerei o que significária para mim.
alguns dias antes da eleição, porém, já dava pra ter uma idéia. primeiro, porque a primeira questão que todo mundo faz para um norte-americano assumido no brasil (pois tem varias fazendo de conta de ser canadenses ou inglêses), desde a primeira vez que eu passei por aqui em 2002, sempre era "mas...você votou em bush?" até que, há uma semana atrás, no máximo, passou a ser "você votou em quem? votou naquele moreno? votou em obama?" já é um alívio enorme poder responder afirmar que votei no cara mais legal, em vez de não ter votado no facista.
sei muito bem que, pra chegar até esse ponto, o barack hussein já deveria ter vendido a alma varias vezes. por enquanto, estou resolvido a passar uma semana para só curtir a vítoria, depois volto a criticar-lo furiosamente. mas porra...que vítoria, né? os eua um presidente chamado "george walker" que mal sabe escrever o próprio nome. agora, temos um cara chamado "barack hussein" que pelo menos fala muito bem.
uma amiga minha que mora em boston, minha terra natal - e bastante conhecida como uma das cidades racistas do nordeste de lá - falou que, nessa quarta-feira, ela começou a cantar "we shall overcome", o hino do movimento negro do martin luther king, jr., num elevador junto com monte de gente desconhecida. na noite da eleição, não consegui falar com meu pai - velho progressista e apoiador de causas infelizmente perdidos - porque ele estava chorando de tanta felicidade. disse que, nos 60 anos que ele tem, ele nunca tinha visto um candidato igual, em quem ele realmente acreditava. uma amiga minha - poeta, lésbica, imigrante do haíti - disse que ela nunca sentiu tão orgulhoso de fazer parte dos estados unidos. é impressionante.
sei que eu vou chegar muito ficar decepcionado com ele. sei que, mesmo se ele quisesse, não daria para deconstruir séculos de tanta violência imperial. mas a possibilidade de ver um presidente inteligente, jovem, pensador, e sim, negro me emociona muito. a possibilidade que os estados unidos poderia até participar num dialogo internacional, de que a gente poderia ser um "bom vizinho" no ato, em vez do que na fala. que a gente poderia chegar a ser um país humilde, um país que atua com - em vez de contra - o mundo. o meu sonho é ver evo morales sendo recebido com um grande churrasco na gramada da casa branco. sei que não vai rolar. mas, por enquanto, estou sonhando muito mais levemente do que antes.
espero que esteja tudo ótimo com vocês...já na volta do alto tapajós, a gente se fala.
um grande abraço,
raphi
ps: fiquei super emocionado assistindo a eleição, mas só cheguei a chorar mesmo no dia seguinte, ouvindo "apesar de você." porra, cara...o chico acertou na mosca. imaginei cantando para a cara do bush...
--
Todo mundo tem o direito de viver cantando.
- Cartola
Rafhi "o gringo que fala" é, gringo, poeta, repentista, educador e amigo... etc.8
carta aos orientadores.
Acabei somatizando umas coisas, e fiquei doente... Gostaria muito de
ter correspondido as espectativas em geral.
Acabei tambem parando de ir na faculdade, de atender telefone, de ver email e de comer... Agora já tou um pouco melhor, e por isso tou escrevendo...
Minha tia com quem moro ficou preocupada e tá me pagando uma psicologa que me passou uns florais pra coragem, e sei mais lá o que... não sei se pelos florais, mas tenho estado melhor.
Tive uma criação muito anárquica e percebo que temo muito os compromissos burocráticos, no entanto, quando eles têm rosto, o medo vira culpa e vergonha... de mim mesma no mais.
esses dias fui pegar um dinheiro da prefeitura e vi que tinha recebido
um dinheiro do CNPQ... me senti muito mal...
Gostaria muito de ter a compreenção de vocês nesse momento delicado...
sem mais querer prolongar,
peço desculpas.
ass: 'A Guiné da história'.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
http://quadro-magico.blogspot.com/2008/02/lundu-n3-traz-galinha-guin.html
Guiné hq24horas:
http://acape.org.br/24hcd/as-paginas-de-anahira/
segunda-feira, 28 de abril de 2008
eu biológico

















